As pessoas que amamos
nunca ficam feias

Aqui estou eu diante da minha mala de viagem aberta em cima da cama. A mala de tamanho médio e ainda vazia, as coisas que devem ir estão amontoadas  ao lado. Poucas coisas. Aos  30 anos transformei-me num viajante despojado, fui largando pelo caminho todo o aparato, ah, com que alívio me desvencilhei das roupas que já não vestia e dos livros, que nunca tinha tempo para ler. Essas coisas que sabemos que não nos servem para nada mas que nunca temos coragem para deitar fora... Se nos pudéssemos desvencilhar de certas recordações, com a mesma facilidade...  Amado Paulo, amado, amado! Tão louco, tão lúcido, tão amado tão amante! Por onde andas tu ?

   Foi um amor tão insensato e ao mesmo tempo equilibrado, é possível isso ?
Ficar com um pé na rocha de granito e o outro pé na onda do mar, na espuma...

Separados á quase  10 anos, tão intensa a correspondência e, depois, o silêncio...

        A ultima carta que te enviei voltou amarrotada, com os negros carimbos
                           do desencontro, "destinatário desconhecido".

                            Paulo, onde foi que tu te metes-te ?! Hein?...

                                            Apaixonaste-te por outro ?

        Sempre foste um sedutor,  e eu sempre soube que eras homem demais
                                                       para ser só meu...

  "Eu não quero  prender-me a ninguém" dizias-me, "nem que ninguém se prenda 
                               demais a mim. Preciso de me sentir livre.

Tens de continuar a ter a tua vida independente de mim, os teus sonhos, os teus homens... e nas  horas livres, amar este trapezista em pleno trapézio voador, estás a perceber ?"

  Eu fingia que compreendia e tu fingias que acreditavas. Mas eu respeitava essa tua vida.

                    Eh! Paulo, será mesmo este o teu verdadeiro nome  ?

  Ainda me lembro bem, o céu fervilhava de estrelas quando nos despedimos no aeroporto... Onde estás tu agora, onde ?!...

        As cartas tão flamejantes nos primeiros tempos e, de repente, o silêncio,   
                           "destinatário desconhecido", avisou o carimbo...

  Tanta gente que apareceu e desapareceu na minha quase longa e tumultuada
travessia , nascimentos, mortes, muitas mortes. Mortes. E, de repente,
esta antiga paixão que vem com tamanha força, vem e me toma e me cobre
inteiro  desta lava cintilante - mas é possível isso ? Paulo, Paulo...

                                            Por onde andas tu, ein?!...

              Temos de nos voltar a encontrar, pelo menos, uma última vez...

  Na tua companhia fiquei mais verdadeiro. Menos ansioso,  ensinaste-me a viver apenas um minuto de cada vez.   

  A primeira vez em que fizemos amor, lembras-te ? Tínhamos  acabado  de nos
conhecer... Levaste-me para a tua casa em Cascais. Uma casa singela, tão pequena e tão limpa, a mesa, os armários toscos e a cama. E livros, tantos livros desabando das prateleiras  das estantes. Serviste-me um copo de vinho, e fomos bebendo
devagar, olhos nos olhos,

Paulo, acho que estou a ficar apaixonado por ti... Mas subitamente devias os olhos dos meus, pareces alterado, e voltas a encher o teu copo de vinho até transbordar ... "Pedro - preciso de te dizer uma coisa... - e agarras-me  no braço com
            tamanha força, que por momentos penso que mo vais arrancar -

       " não te posso enganar. Tu não mereces ser enganado... Eu tenho sida".

" Sida"! Disseste-me tu, como  se   naquele momento eu não estivesse também  já infectado...  Fiquei infectado desde o primeiro instante em que te vi, percebes ?! Bastou-me, olhar para ti...  Não precisavas de ter partido para poderes morrer
longe, para que não  te visse doente e feio ..., como se eu te pudesse algum dia achar feio... As pessoas que amamos nunca ficam feias...
                                 
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