Paixão á primeira vista


Estava só  há 4 meses a viver em Sintra, e ainda mal  me acostumara á beleza e ao ambiente calmo e agradável que se vive na  vila. Tinha chegado do interior do Alentejo mais profundo, e  estava completamente fascinado com todo aquele verde. As casas antigas, as quintas,  os palácios, os palacetes...
   
E certo dia, não resistindo á beleza de um desses maravilhosos jardins , dei comigo a entrar por um portão entreaberto e a encher os olhos com toda aquela explosão de cores primaveris.

E tão embriagado fiquei  com o perfume, que nem me dei conta que estava a evadir propriedade privada  E já me encontrava demasiado afastado da entrada, quando escutei alguém a trancar o enorme portão de ferro. 

Foi só nesse instante,  que tomei consciência de estar a cometer um crime. E tão assustado fiquei, que me escondi rapidamente por trás da folhagem de  um arbusto.

E quando magicava uma forma de me escapar daquela situação tão embaraçosa e comprometedora, fui subitamente interrompido pela  voz de um rapaz, que me fez lançar um grito de pavor.

-Calma. Não precisas de ter medo. O que é que fazes aqui ? -  perguntou.

Atabalhoadamente, comecei a tentar explicar-lhe os motivos que me levavam a estar ali, por sorte, nesse instante, lembrei-me do cartaz que vira colado na parte de fora do portão: 

-Sou jardineiro e vim responder ao vosso pedido, e...

  Foi nesse instante, que percebi que estava perante um rapaz muito atraente que se fazia deslocar numa cadeira de rodas. Tinha o cabelo castanho claro, muito curto, olhos de um azul muito vivo,  lábios carnudos como  morangos maduros, um corpo de adolescente bem constituído e estupendamente sensual.

- Claro, vem comigo, que eu levo-te até á pessoa que está a tratar disso -  disse com uma voz suave, e o sorriso mais encantador que já vira.

Segui-o . E ele conduziu-me sem dificuldade fazendo deslocar a cadeira de rodas com as mãos sobre a relva, entre roseiras e arbustos, até um pequeno escritório que ficava ao fundo da moradia onde estava um homem de meia idade, que devia ser o caseiro.

Depois de um breve interrogatório, este perguntou-me quando é que podia começar a trabalhar. Hesitante, pois não estava minimamente interessado no emprego, e nem nunca tinha trabalhado em jardinagem,  mas resolvi  fingir concordar em começar logo na manhã do dia seguinte, só para me livrar dele mais rapidamente.

Quando finalmente me vi longe dali, respirei de alivio, mas sem conseguir livrar-me dos remorsos que começava a sentir, por haver mentido, e por saber que na manhã  seguinte, eles estariam a contar comigo para começar a trabalhar no jardim.

Mas naquele momento era tarde de mais para voltar atrás, por isso voltei para casa e tentei esquecer o assunto.

Mas logo comecei a perceber que o encontro com aquele rapaz maravilhoso me deixara muito impressionado, e a forma como ele me tratara, deu-me a impressão de que se tratava de algo mais do que simples gentileza, e que a atracção tinha sido mutua.

Sentia-me como se o olhar dele tivesse penetrado tão fundo em mim,  que nunca mais me conseguiria livrar dele...

Passei o resto da tarde, fechado no meu quarto a reviver esse breve encontro ao mesmo tempo que  me ia deixando levar pelas fantasias, e ás tantas já não conseguia separar o real do imaginário...

                             

Na manhã seguinte, acordei muito cedo e lembrei-me que havia sonhado com o rapaz.

... empurrava-lhe a cadeira de rodas sobre um campo imenso de papoilas... Riamos muito e gritávamos de completa felicidade.

De repente,  exaustos, deixámo-nos cair  sobre as papoilas abraçados, e fomos  rolando no chão...

Depois, ele pousou a cabeça sobre o meu braço, e enquanto  me sorria com doçura,  fui descendo a minha boca ao encontro da sua e beijei-a com ardente paixão...
  Na manhã seguinte, despertei na solidão do meu quarto, com a boca a saber a morangos...

Disposto a voltar a encontra-lo, decidi assumir a  função de jardineiro.

Afinal, eu gostava tanto de plantas, e já lera tantos livros sobre jardinagem, que dificilmente daria um mau jardineiro.

E foi assim, que inesperadamente, me tornei num profissional  de jardinagem. E, passava os dias arrancado ervas daninhas e compondo canteiros na companhia de Daniel.

E cada dia que passava, ficávamos mais íntimos.

Antes de eu ter aparecido, ele vivia encerrado por detrás do portão da sua casa maravilhosa, super protegido pela família, raramente saia.

Mas depois de eu lhe ter revelado toda a verdade, do qual nos rimos bastante, despedi-me da minha breve função de  jardineiro, e assim, já tínhamos mais tempo para podermos sair e divertir-nos longe do olhar controlador da sua família, que apesar de achar a nossa amizade bem vinda, encaravam-na com uma certa desconfiança...

No nosso primeiro passei-o, levei-o ao palácio da Pena, onde ele só tinha estado uma vez, com os país, e aproveitamos para namorar, muito, entre as árvores do parque sem nos importarmos com o olhar chocado, de algumas pessoas que por vezes nos surpreendiam nas poses mais românticas.

Estávamos tão felizes por estar juntos, que tudo á nossa volta deixava de ter muita importância e já não havia nenhum tipo de preconceito nem maldade no mundo, que nos pudesse atingir. 

Quando estamos apaixonados é como se a outra pessoa nos completasse e ai, perdemos todos os medos e inseguranças que sempre nos impedem de ser verdadeiramente felizes.

Daniel, pela sua limitação física, e pela sua homossexualidade, sempre se sentira duplamente inferiorizado,
incompleto...

E eu, apesar de não possuir nenhum tipo de limitação física, sempre me sentira igualmente inferiorizado por não poder assumir abertamente as minhas opções sexuais.

Passei a maior parte da minha adolescência sem poder expressar o meu lado homossexual. Ansiando ter um namorado,  iniciar a minha vida sexual, e ter amigos gays com quem pudesse partilhar as minhas duvidas mais intimas. 

Mas nem eu nem Daniel podíamos fazer mais nada quanto ao nosso passado, mas estávamos disposto a lutar por um futuro melhor, onde pudéssemos viver plenamente a nossa felicidade e unir os nossos destinos. 

E para isso, estávamos dispostos a enfrentar as nossas famílias,  se preciso fosse.

Mas, nenhum preconceito no mundo, nos iria mais conseguir impedir de ficarmos juntos nem de sermos felizes...
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