Entrevista efectuada pelo telefone (Domingo, 21 de Setembro, 12, 30 h)

Daniel Santos - Como te sentes depois da agressão de que foste vitima ?
Pedro Nascimento - Agora, mais calmo...
Mas ainda sentes revolta ?
Revolta ? Não convivo bem com isso. Prefiro racionalizar as coisas...
Como assim ?
Fui agredido por umas pessoas que se devem sentir tão infelizes que precisam de andar a agredir outras. Eu que tenho uma vida tão preenchida de coisas maravilhosas, que só faço aquilo que gosto, que sou muito amado, que tenho amigos maravilhosos, que vivo nesta casa maravilhosa rodeado de um jardim maravilhoso... vou deixar-me consumir por esse tipo de sentimentos ? O que eu sinto por essas pessoas é pena. Coitados... tão novos ainda, que tipo de futuro é que os espera ?
Mas vais processa-los...
Sim, mas só porque me sinto nessa obrigação. Eles cometeram um crime e devem pagar por isso. Espero que lhes sirva para alguma coisa, que pelo menos, não voltem agredir outros gays.
Sabes se eles continuam a ir ao parque ?
Dizem que sim...
Porque é que achas que os gays não se queixam quando são agredidos ?
Por medo. Sabem que nas esquadras o preconceito é tão forte ou maior do que cá fora. Os policias tb vão para o parque humilhar os gays e ainda não há muito tempo, tb os espancava...
Mas disseste, que a culpa tb é dos gays ?
Claro. Se todos os gays tivessem a coragem de lutar pelos seus direitos impondo respeito, a sociedade respeitava-os. Mas os gays são os primeiros a não se respeitar...
Não te podes esquecer, que nem todos os gays se podem dar ao luxo de só fazerem aquilo que querem. A maioria tem de trabalhar em empregos onde ainda existe muito preconceito, o que os obriga a proteger-se...
Mas isso não desculpa tudo. Tenho um amigo que é director de uma grande empresa, que até teve de se casar para conseguir subir na carreira, e no entanto, uma vez foi agredido á saída de um bar gay e foi imediatamente apresentar queixa na esquadra. Claro, que não revelou na esquadra o nome da empresa onde trabalha, nem teve de dar pormenores da sua vida. Limitou-se a apresentar uma queixa crime contra quem o agrediu. O que é que isso que tem de mais ? Tanto medo do quê ?
Talvez, não seja mesmo só por medo...
Claro que não. O preconceito é uma boa desculpa para muitos não terem de assumir que não se respeitam como pessoas, que não se valorizam, que se sentem seres profundamente inferiorizados...   E enquanto isto acontecer, pouca coisa vai mudar.
Mas o crescente sucesso dos gay Pride nacionais, mostra que existem cada vez mais gays que sentem orgulho...
Comparado com o numero de gays que existem neste pais, os que aparecem ai são uma gotinha de agua num oceano de "maricas"...
Noto que ficaste um tanto... caustico, pela forma como falas...
Caustico ? Sim, acho que fiquei um pouco mais agressivo, mais intolerante com as coisas intoleraveis, mais "caustico", se preferires. Quando passamos por uma situaçao tao extrema, em que se acredita, que se pode morrer, como me aconteceu no parque, amadurecemos um bom bocado e passamos a encarar as coisas, o mundo  há nossa volta de uma forma mais crua e realista. De repente, eu apercebi-me que estou rodeado de muitos "maricas" e de alguns tarados... 
O que se pode fazer para reverter a situação ?
É um facto que existem cada vez mais gays capazes de dar a cara, mas é urgente que os lideres das nossas associações gays (Opus e Ilga Portugal) abandonem, finalmente!, os seus mundinhos pequenos e assumam de forma orquestrada e inteligente, o «comando» da "bicharada"... E a primeira coisa que eles devem começar por fazer, é enterrar definitivamente os machadinhos de guerra que usam para se picar uns aos outros...   
         
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