"Vou para ali contigo, se me deres dinheiro para um SG gigante..."

Nem sei muito bem o que pensar  em relação a este escândalo da Casa Pia, se por um lado acho grotesco que pessoas se tenham aproveitado da miséria e venerabilidade de menores, sobretudo de crianças para as usar como se meros objectos de prazer fossem, por outro lado, tenho pena daqueles que não sendo pedofilos, caíram na tentação de usar adolescentes com a mesma finalidade egoísta.  Estes últimos, quanto a mim, terão sido, pelo menos, em alguns casos, mais inconscientes, que criminosos. 

E digo isto porque eu mesmo muitas vezes quase me deixei cair na tentação de me entregar a um desses rapazes que oferecem o seu corpo, por vezes, em troca de um maço de cigarros, como aconteceu certa vez, em que passei junto do portão da Casa Pia, e me senti particularmente tentado em faze-lo, faz precisamente, no dia 6 de junho, 4 anos, e lembro-me da data, porque nesse mesmo dia, tinha acabado de assistir á morte do meu pai vitima de cancro aos 38 anos. E foi, talvez, o pior dia da minha vida!

Nunca teria ido com esse miúdo, nem com nenhum outro, mesmo sendo tb eu ainda um miúdo, pois eu teria uns 14 anos e ele, no máximo  uns 13, por mais carente e infeliz que eu me sentisse.  Tudo o que me lembro de sentir, nesse instante foi revolta e indignação por ver aquelas crianças ali abandonadas, se oferecendo a troca de nada.

Não foi essa a única vez em que recebi tal convite: "Vou para ali contigo se me deres dinheiro para um SG gigante", ou, "deixa-me ir para tua casa ver televisão...". Pois vivia mesmo ali, do outro lado da rua. Perdi a conta do dinheiro que dei a essas crianças e as vezes em que sai sorrateiro de casa, ou mesmo evitava sair á rua, só para não ter de lhes dar mais dinheiro, porque tinha pouco, e era incapaz de lhes dizer não. Mas o que me custava ainda mais, era ver aqueles senhores, mal caia a noite, a rondarem as crianças e a desaparecerem com elas no interior dos arbustos. Nessas  alturas, eu tinha a certeza de que Deus não poderia existir e permitir tal monstruosidade...

Infelizmente, este é apenas mais um exemplo das monstruosidades que todos os dias destroiem a vida de mais umas criancinhas. E eu como cresci convivendo com este tipo de coisas, acredito pouco em justiça terrena e ainda menos em justiça divina.
Se todos os senhores que eu vi durante anos a »comer» criancinhas atrás de arbustos, mais aqueles que as levavam para as «papar» em grupo, fossem presos. Não haveria espaço nas cadeias nem para um terço deles... A começar pelo políticos, que embora, nem todos  «comessem», deixaram esses  monstros a lambuzar-se durante mais de 20 anos...   

Relato: Paulo costa
Texto: PN


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