Porque essa atitude de rejeição da maioria dos cegos congénitos a uma possível erradicação da cegueira ? 

Resposta de Artur G:
O texto anteriormente apresentado (ver "O fim da cegueira ? ") não deixa de ser interessante. Acredito que esta descoberta venha trazer muitos benefícios aos cegos, principalmente àqueles que, já depois de terem visto, ficaram privados da visão.

Se analisarmos alguns discurso de cegos adquiridos e de cegos congénitos, verificamos que, os primeiros mostram muito interesse nesse tipo de invenções e porquê? Primeiro porque olham para a sua cegueira como a perda de algo pelo qual o mundo se gere. Deixaram de ter acesso à informação escrita, ao brilho do sol, para o qual, muitos nunca tinham olhado,  para o florescer da primavera que só depois de cegos verificaram que era tão bonito e atraente. Mas continuam sem dar atenção ao maravilhoso canto dos pássaros na primavera, que esse tipo de atenções são as vão dar quando ficarem surdos.

Mas passando da ironia à realidade:
que benefícios trará a um cego congénito de quase 30 anos um evento como este. Agora que aprendi a ler a escrever Braille, que já existem programas de computador que nos dão autonomia para trabalhar na Net, que já desenvolvi todos os meus mecanismos de defesa sob a perspectiva de um cego... Teria eu todas essas capacidades se recuperasse a visão?

Um escritor do século XVIII, creio, escreveu mais ou menos isto, surpreendendo a sociedade da época:
Será que, se mostrássemos a um cego congénito uma esfera e depois ele tivesse a capacidade de recuperar a visão, ele seria capaz de identificar a mesma esfera só com os olhos?
Não foi bem isto que ele disse, mas a ideia era essa.

É claro que se eu visse, não receberia mensagens pela net como esta: "Confesso que quando me disseste que eras cego, fiquei com algumas reservas", coisa que eu nem diria a alguém que me escrevesse e me revelasse ter sida. É verdade, depois disso, essa pessoa não mais voltou a escrever para mim. Se eu visse, poderia ir para o engate sem problemas e ninguém me perguntaria o que eu andava ali a fazer e se já não eram horas para eu estar na cama, como já aconteceu. Talvez a minha atitude em relação ao invento apresentado tenha a ver também com a minha total descrença na sua real eficácia. Mas partindo do princípio que eu voltaria a ver: teria de aprender a ler e a escrever, a usar o ecrã do computador e ainda por cima, perdia a oportunidade de me sentar no banco da frente quando o autocarro estivesse cheio. Isto é ironia, mas ao mesmo tempo não é. Como cego congénito (e isto é muito importante) conquistei uma série de capacidades que não sei se a recuperação da visão me  permitiria manter. Reparem que não estou a falar de aparelhos que me permitiriam ver fontes de luz ou coisa que o valha, mas estou a falar da recuperação da visão.

Claro que se me perguntassem se eu gostava de ver, a única coisa que responderia era: talvez, nem que fosse para experimentar. Foi o mesmo que fiz para saber se gostava ou não de mulheres. Primeiro tive que experimentar para saber que não gostava. Mas é só isso, melhor não sei responder à questão "gostavas de ver".
Compreendo que, para quem vê, esta minha explicação pode parecer estranha, mas é apenas a minha opinião. Creio que o sonho de obrigar os cegos a ver é algo que faz parte do mundo de quem vê. Os que vêem dizem que, ao fechar os olhos vêm escuridão. Escuridão? Confesso que não sei o que isso é. Os meus olhos vêem tanto como o meu cotovelo ou o meu dedo do pé. Alguém vê escuridão com o dedo do pé? Não consigo sequer imaginar o que seja escuridão.

Esta é a minha opinião como cego congénito. Sei que a dos cegos adquiridos é diferente, como é lógico,  mas esta é a minha opinião, válida apenas para mim.

Artur G

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