Texto publicado no Público

Médico dos EUA Implanta Dispositivos
Contra a Cegueira em Lisboa
Por ANA MACHADO


Invenção de William Dobelle

Desde que o médico norte-americano William Dobelle decidiu instalar-se num
edifício do Hospital da CUF, na Avenida Infante Santo, em Lisboa, em Março
do ano passado, os telefones não param e o corropio de gente é constante. O
investigador do Centro Médico da Universidade de Columbia, em Nova Iorque,
Inventor do dispositivo visual artificial para cegos, que mandará, nas suas palavras,
o código de Braille, as bengalas para cegos e os cães guias para os museus,
recebe ali os doentes que já seleccionou para implantar a sua invenção e faz
entrevistas telefónicas para escolher futuros candidatos. Telefonam de todo
o mundo. E vêm jornalistas de toda a parte para o conhecer. "É o princípio
do fim da cegueira", defende.

À hora combinada, Dobelle ainda almoçava num dos gabinetes do sétimo piso do
edifício, onde está instalada a sucursal do Instituto Dobelle em Lisboa.
Aquele era um dos poucos intervalos que os jornalistas lhe deixavam para respirar.
"O doutor está só a comer qualquer coisa, que ainda nem conseguiu almoçar",
diz a assistente, já habituada ao ritmo.

Entre câmaras de televisão, microfones e máquinas fotográficas, e de paredes
forradas a artigos e "posters" sobre a invenção de Dobelle, há uma sala onde
está Karen. Tem 54 anos, é norte-americana e receberá amanhã, no Hospital da
CUF, pelas mãos de uma equipa coordenada pelo neurocirurgião João Lobo
Antunes, o dispositivo de visão artificial que lhe deverá restabelecer alguma
percepção visual, que perdeu completamente há 27 anos depois de uma operação
mal sucedida.
Karen, que não se apresenta com mais nome nenhum - aliás, nenhum doente de
Dobelle tem segundo nome -, não quer contar mais pormenores.

"Sigo o doutor Dobelle há sete anos, desde que ouvi uma entrevista dele.
Mandei-lhe logo uma mensagem de correio electrónico e aqui estou". O que é
Que sente por estar aqui à espera de receber o implante? "Sinto o estômago às
voltas, as minhas emoções são variadas, mas estou contente e sinto-me
Honrada por ter sido escolhida. Ele é o meu Einstein". O preço a pagar pela cirurgia
e pelo dispositivo é de 100 mil euros. Mas o paciente fica obrigado a
Visitas frequentes a Lisboa, para ser seguido, o que torna a intervenção
impraticável para muitas bolsas.

O caso de Jens

William Dobelle entra, entretanto, acabado o almoço, na sua cadeira de rodas
- Dobelle teve de amputar uma perna, há um par de anos. Calvo, de aspecto
débil, o médico prepara-se para mais uma bateria de perguntas. "Pergunte-me o que
quiser. Trabalho na visão artificial há 35 anos. Mas a melhor pessoa para
Lhe responder é Jens", diz, apontando para o madeireiro canadiano de 40 anos que
recebeu o ano passado o segundo implante colocado por Dobelle.

Jens, cego há 18 anos, acciona o aparelho que tem à volta da cintura e que
liga aos óculos com uma pequena câmara de vídeo, que faz o que os seus olhos
não são capazes: capta as imagens à sua volta. Essa informação é transmitida
para um pequeno computador, colocado à cintura, e transformada em impulsos
eléctricos, que sobem até ao cérebro de Jens, por meio de dezenas de fios,
eléctrodos pretos, que entram pelo crânio dentro, de um e lado e doutro da
cabeça.
Parece que está a ouvir música com auscultadores. Mas os eléctrodos vão
estimular directamente o seu córtex visual.

"O que vê?" Jens liga a máquina e espera um pouco, para dar tempo ao
dispositivo de actuar: "Vejo formas básicas e pontos luminosos em torno das
Formas de objectos e pessoas na sala. O dispositivo tem-me ajudado no dia-a-dia",
diz Jens. "E não me incomoda, apesar de depois do 11 de Setembro as pessoas
se assustarem com cintos volumosos à cintura. Até pude apreciar um passeio
por Lisboa, que é uma cidade muito luminosa. Vi as estátuas do Parque
Eduardo VII e o Marquês de Pombal. Gostava de morar aqui", confessa. "Por isso
Lisboa é tão boa para nós", acrescenta Dobelle.

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