Nunca tinha pensado nisso... António Serzedelo

  Nunca se falou tanto de sexo, e tão pouco de afectos. A questão das pessoas com deficiência aponta-nos mais para  a área dos afectos, do que do sexo, sem pretender dizer que não podem ser excelentes parceiros sexuais. Elas obrigam-nos a fazer  o ponto da situação.

  No tocante aos (d)eficientes, há um (des)valor comum  muito partilhado por todos, gays e heteros, e que tem a  ver com produção, numa sociedade produtiva.

  Como  o casamento foi instituído para produzir filhos, ou , de uma forma mais radical, para  produzir mão de obra, de preferência barata,  pensava-se que os (d)eficientes estariam inibidos  desta função, logo, não era bom acordar neles a  sexualidade, que seria um vector inútil, por não poder-se exercer nesse sentido. Daí a reprimi-la ,ou a nega-la, foi um passo.

  Durante muitos anos , as pessoas (d)eficientes não eram tidas como se pudessem ser sujeitas da sua própria sexualidade. Eram quando muito, objecto da sexualidade dos outros, em termos de disfruto ou abuso , e nada mais.

  Quanto aos gays e lesbicas , se já sofriam na carne pelo facto de terem algum sinal exterior que os  indicasse como  (d)eficientes, o que os isolava, e isola dos outros , a discriminação,  esse  isolamento tornava-se mais extensivo, quando  se  descobriam como homos: uma dupla discriminação .

  Há  três vectores que são importantes para caracterizar  as necessidades das pessoas:
  Segurança emocional e auto estima. Necessidade de uma rede de relações sociais, para alem da família. Necessidade de contacto, e intimidade afectiva e sexual.

  Por outro lado,  em geral, muitas pessoas com deficiência  encontram-se numa grande solidão emocional, e com uma baixa auto-estima,   socialmente isoladas, e com falta de oportunidades,  enfrentando dificuldades serias para  encontrar parceiro, sexual, ou afectivo.

  A cultura gay promovendo sistematicamente um ideal de beleza, juventude, força, sexo, moda... obviamente, que passa ao lado daqueles que não se enquadrem neste modelo.
  Não sabe  avaliar  o muito que estas pessoas podem dar, tanto no plano sensorial, como no plano afectivo. E  como  essas pessoas podem ser algo diferentes, estranha-as, tal como os  heteros nos estranham a nós, por pensarem que somos diferentes deles , e também os discrimina.

  A hipótese que nos abre este espaço no SG de nos conhecermos melhor, e ultrapassar  dificuldades mutuas, não deve ser  desperdiçada.

  Temos de a saber aproveitar e dar provas uns aos outros ,de que somos capazes de ultrapassar alguns medos e estranhesas que trazemos em nós próprios. Com  as pessoas  que (D)eficientes, temos uma possibilidade  enorme, talvez única ,  que nos escapa muitas vezes, de poder viver com elas melhor ,o melhor dos nossos sentimentos, as sensações mais construtivas ,que são ,afinal, as que mais nos realizam.

  Conheci, em tempos, um rapaz que tinha perdido uma perna ,vitima de uma  granada na guerra... foi uma boa experiência! Antes, nunca tinha pensado nisso...

                           António Serzedelo, presidente da OpusGay


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